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A decisão que ninguém lembra de ter tomado

Toda empresa tem uma regra que todo mundo segue e ninguém consegue explicar direito. Na maioria das vezes, ninguém decidiu nada: alguém fez de um jeito uma vez, por pressa, e a repetição virou "como sempre foi". Quando alguém de fora pergunta o motivo, a resposta quase nunca é "não sei"; é uma razão inventada na hora, que soa lógica.

Segunda, 19 de outubro de 2026·Assina Guilherme Saboia e Wagner Freitas

Toda empresa tem alguma regra que todo mundo segue e ninguém consegue explicar direito. Por que o relatório financeiro fecha no dia 5, e não no dia 1 ou no dia 10? Por que o desconto máximo do vendedor é 12%, não 10% nem 15%? Pergunte a cinco pessoas diferentes e você ganha cinco respostas diferentes, nenhuma delas uma certeza.

A explicação mais honesta, na maioria dessas regras, é que ninguém decidiu nada. Alguém fez de um jeito uma vez, porque fazia sentido naquele mês, com aquele cliente, naquela pressa. Na semana seguinte, fez igual, porque já tinha um exemplo pronto. Depois de um ano, virou "como sempre foi", e ninguém mais lembra que aquilo começou como solução de uma terça-feira qualquer.

A regra que ganhou motivo depois de existir

O efeito mais curioso aparece quando alguém de fora pergunta o motivo. A pessoa que responde quase nunca diz "não sei"; ela monta, na hora, uma razão que soa lógica. O fechamento no dia 5 vira "para dar tempo de conferir o mês anterior com calma". O desconto de 12% vira "o ponto de equilíbrio da margem". São boas respostas, e é bem provável que nenhuma delas seja o motivo real.

Isso é memória preenchendo um buraco. Diante de uma regra que já existe e que ninguém vai mudar no minuto seguinte à pergunta, o cérebro prefere montar uma justificativa a admitir que a origem se perdeu. A justificativa inventada, repetida algumas vezes, vira história oficial, até para quem a inventou.

Por que isso custa caro?

O problema é não saber diferenciar duas coisas: a regra que resolve um problema real de hoje, e a regra que só resolve um problema de uma empresa que já não existe mais do mesmo tamanho. Muitas regras acidentais continuam fazendo sentido mesmo sem ninguém ter escolhido elas de propósito; a questão é testar cada uma, não descartar por princípio.

Sem saber a origem, fica impossível fazer esse teste. Uma empresa de dez funcionários e uma de cento e cinquenta não deveriam fechar o mês do mesmo jeito, aprovar despesa pela mesma alçada, nem dar desconto pelo mesmo critério. Sem ninguém lembrar a origem da regra, também ninguém se sente no direito de mudá-la.

O que fazer nesta semana

Escolha uma regra da sua empresa que todo mundo segue sem questionar, e pergunte a três pessoas diferentes o motivo de ela existir. Se as respostas forem parecidas e específicas, a regra provavelmente nasceu de uma decisão de verdade. Se forem vagas ou diferentes entre si, você encontrou uma regra que se formou sozinha, e vale perguntar se ela ainda serve ao tamanho da empresa de hoje.

Se fizer sentido, mande para um de nós a regra que você mais segue sem saber explicar. Devolvemos, por escrito, uma leitura curta de se ela ainda faz sentido ou só sobrou de um problema que já passou.

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Publicado toda segunda-feira pela Prumo Partners · Guilherme Saboia e Wagner Freitas

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