
A Sela Nova
Uma fábula sobre preparar alguém, marco a marco, até que a lista do feito fique maior do que a do prometido.
Numa estância do Planalto, uma sela crioula feita sob medida espera no paiol há doze invernos, e Ramiro, aos trinta e quatro anos, aguarda o dia de montá-la.
A imagem que sustenta o livro
O livro abre no paiol da Pedra Encaixada, diante de uma sela crioula pendurada no cavalete: o couro de um castanho fundo, os estribos de bronze sem um risco. Venâncio Vilhena a encomendou quando o filho voltou da cidade para ficar, e disse na frente de todo mundo: “Essa é a tua. Quando chegar a hora, tu desce ela daí.” A Sela Nova começa nessa espera.
A história
Ramiro tem trinta e quatro anos. Sabe desenhar a estação de monta no caderno e acalma um potro sem levantar a voz. O pai acorda decidido, dá as ordens do dia com a cuia na mão, monta o Sentinela, o tordilho que, diz o pai, só aceita a mão dele, e responde às contas do filho com a expressão que governa a estância: “Deixa que eu vejo isso na hora.” Todo inverno, Eulália desce a sela do cavalete, passa graxa e pendura de volta, sem comentário.
Na exposição de Bom Pouso, Venâncio fecha o gateado com o comprador de Lages, e Ramiro segura o potro que ele mesmo domou. Da arquibancada, Leonor Valadares assiste à cena inteira. Ela foi jurada de pista por vinte anos e toca sozinha uma cabanha no Salso. Ela pergunta quem domou o gateado, e depois: “Quantos anos tem a tua sela?” Na quinta-feira seguinte, Ramiro vai ao Salso.
O que a fábula faz de melhor
Põe em cena um pai bom, que fez da estância o que ela é e ensinou ao filho tudo o que sabia, e mostra com carinho o que falta para a passagem acontecer. A Nota ao leitor resume: “Sucessão se faz com uma lista de coisas feitas, cada uma com um dia combinado e um ensaio antes.” O Planalto vem junto, com o mate antes do sol, a bombacha, o pala, o campo nativo branco de geada e o crioulo na pista de areia. E Eulália, que diz uma vez só e deixa a frase sentada na cozinha, fica com o leitor.
Para quem é
Para o pai que preparou o sucessor a vida inteira e ainda não marcou a data. Para o filho que está pronto e espera. Para a mãe que passa graxa na sela todo inverno. A Nota ao leitor pede que o livro seja lido com a pessoa que vai continuar, e com um lápis na mão.
Veredito
Uma fábula do campo e do couro, para ler numa tarde ou em duas e conversar em família. Fecha com os Ditos da Sela e um glossário. E guarda, na pausa do meio, uma pergunta que só quem vai continuar pode responder.
E se a sela do paiol lembrar a sua própria família, a Prumo terá prazer em conversar.
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