Cinco filhos, cinco cidades, nenhuma disputa
Mayer Amschel Rothschild, banqueiro de Frankfurt, teve cinco filhos homens e um problema que qualquer empresa familiar reconhece: cinco herdeiros capazes e uma casa só.
Mayer Amschel Rothschild, banqueiro de Frankfurt, teve cinco filhos homens e um problema que qualquer empresa familiar reconhece: cinco herdeiros capazes e uma casa só.
Mayer começou a espalhar os filhos ainda em vida, com Nathan na Inglaterra e James em Paris, e os irmãos completaram o desenho depois da morte dele: Salomon em Viena, Carl em Nápoles, Amschel à frente de Frankfurt. Cinco casas com gestão local e capital comum, ligadas por contrato de sociedade renovado entre os irmãos e pela obrigação de trocar informação entre si.
Uma observação de honestidade antes de seguir. A parte mais contada dessa história, a fortuna feita com a notícia antecipada de Waterloo, é a menos documentada. A versão popular vem em boa medida de um panfleto de 1846 assinado com o pseudônimo Satan, escrito para atacar a família, e hoje é classificada por historiadores como difamação antissemita. O que está documentado é menos cinematográfico e mais útil para quem administra: as cinco casas mantinham correspondência e mensageiros próprios, mais rápidos que o serviço público da época, e decidiam com informação que os concorrentes ainda não tinham.
Mayer não escolheu um sucessor. Ele fez com que a pergunta não precisasse ser respondida.
Se Mayer tivesse concentrado o comando numa sede única sob um só herdeiro, os outros quatro, todos capazes, teriam disputado a mesma cadeira. A dispersão virou regra da casa, e a briga ficou sem objeto.
O espelho
Uma empresa familiar brasileira chega à segunda ou terceira geração com três ou quatro herdeiros preparados. Estudaram, trabalharam fora, voltaram. E existe uma cadeira.
O movimento que mais vemos é nomear um deles diretor-presidente e dar aos outros títulos que soam equivalentes: diretor de novos negócios, diretor de relações institucionais, diretor de projetos especiais. Cargos sem perímetro definido, sem número próprio para responder e sem decisão que se tome sem consultar o irmão que ficou com a cadeira de verdade.
O resultado é previsível e costuma levar alguns anos para aparecer inteiro. Os irmãos com títulos vazios passam a disputar influência, porque influência é a única moeda que sobrou. As reuniões de família viram reuniões de empresa e as reuniões de empresa viram reuniões de família. O que era rivalidade entre pessoas capazes vira paralisia entre sócios.
O erro dominante
Na rivalidade entre irmãos, o que pesa raramente é a cadeira do outro; é a falta de uma própria. Quem responde por uma unidade real, com receita própria, equipe própria e um número que é seu, para de olhar para o lado, porque passa a ter algo a perder que depende do próprio desempenho.
Isso muda o que está em jogo na conversa: a pergunta deixa de ser quem manda em quem e passa a ser quantas frentes esta empresa comporta com autonomia de verdade. É uma pergunta de estrutura, e ela tem resposta técnica: depende do tamanho, dos mercados atendidos, da separação possível entre operações e da capacidade de cada frente sustentar o próprio resultado.
A condição que ninguém pode pular
Dispersar sem nada acima é fragmentar, e fragmentar custa mais caro do que a disputa que se queria evitar. As cinco casas dos Rothschild eram independentes na operação e amarradas por duas coisas: um contrato entre os sócios e uma obrigação de informação mútua que ninguém podia negar ao outro.
A tradução para uma empresa familiar de hoje tem três peças, e nenhuma delas é sofisticada:
Perímetro. Cada frente tem escopo escrito, receita própria e um resultado que se apura separadamente. Sem apuração separada, autonomia é só discurso.
Alçada. O que cada responsável decide sozinho e o que sobe ao conselho, por valor e por tipo de decisão. Escrito uma vez, revisado uma vez por ano.
Informação obrigatória. O mesmo conjunto de números, no mesmo formato e na mesma data, de todas as frentes para todos os sócios. Quem esconde número deixa de ser sócio na prática antes de deixar de ser no papel.
O que fazer nesta semana
Uma coisa só. Desenhe numa folha as frentes que a sua empresa teria se fosse dividida hoje em unidades com resultado próprio. Sem nomes de pessoas, só as frentes. Depois conte quantas são e compare com o número de herdeiros que esperam uma cadeira. O tamanho dessa diferença é o tamanho do problema que você tem pela frente.
Se você tem mais de um herdeiro capaz, quantas cadeiras existem hoje na sua empresa com perímetro próprio, número próprio e decisão própria? Se a resposta for uma, a disputa já começou; só ainda não tem nome.
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mini-diagnóstico →A mensagem já vai escrita, citando este artigo. Fala direto com Wagner.
Publicado toda sexta-feira pela Prumo Partners · Guilherme Saboia e Wagner Freitas

