Dezesseis dias de poder absoluto
Em 458 antes de Cristo, pela cronologia tradicional, Roma entregou poder absoluto a um homem que estava arando um campo. Ele o recebeu por seis meses e devolveu no décimo sexto dia.
Em 458 antes de Cristo, pela cronologia tradicional, Roma entregou poder absoluto a um homem que estava arando um campo. Ele o recebeu por seis meses e devolveu no décimo sexto dia.
A história chega até nós por Tito Lívio, que escreveu mais de quatro séculos depois dos fatos, e tem a proporção de toda memória fundadora: parte registro, parte lenda que Roma quis contar sobre si mesma. O desenho institucional que ela descreve, no entanto, é documentado e vale mais do que a biografia do personagem: a república romana tinha, por lei, um cargo de emergência com prazo. Poder total, escopo total, validade curta.
O que Lúcio Quíncio Cincinato fez
Um exército romano comandado pelo cônsul Minúcio estava cercado pelos équos no monte Álgido, e o Senado nomeou Cincinato ditador. O cargo existia exatamente para isso, e o titular respondia por tudo. Ele largou o arado, assumiu o comando, quebrou o cerco e venceu. Terminada a emergência, abdicou de um mandato que ainda tinha quase seis meses pela frente e voltou ao campo. Para as gerações seguintes, virou o símbolo do poder recebido, usado e devolvido sem disputa.
O mandato era de seis meses. A emergência durou dezesseis dias, e o mandato acabou junto com ela.
Se Cincinato tivesse cumprido os seis meses, ou esticado o mandato, a guerra teria acabado do mesmo jeito. O que mudaria seria o depois: uma crise militar resolvida e substituída por uma crise institucional permanente. Roma acabaria descobrindo isso séculos mais tarde, com outro general que recebeu poder de emergência e não o devolveu, e o preço foi a própria república.
O espelho
Uma empresa familiar perde o comando de um dia para o outro. Um AVC, uma saída para o concorrente, uma morte. Não há sucessor formado, não há tempo para formar um, e alguém precisa assinar na segunda-feira.
Quem assina, com frequência, é quem está por perto: o genro que já trabalhava na casa, o diretor mais antigo, o filho que mora na mesma cidade. A escolha é feita em três dias, sob choque, por proximidade física, e é apresentada a todos como provisória.
Dois anos depois ela continua provisória. Ninguém confirmou e ninguém revogou. A pessoa acumulou decisões, contratos e lealdades, e cada mês que passa torna a revisão mais cara e mais constrangedora. O interino que ninguém escolheu vira definitivo por cansaço.
O erro dominante
A emergência é uma péssima banca de seleção. Ela premia quem é bom em emergência, presença, disposição, sangue-frio, e nenhuma dessas é a qualidade que o cargo vai exigir nos cinco anos seguintes. Quem estanca a hemorragia raramente é quem deveria conduzir o tratamento.
O problema não está em escolher errado sob pressão, e sim em deixar a pressão fazer duas escolhas ao mesmo tempo: quem resolve agora e quem comanda depois. Roma separou as duas por desenho. Muitas empresas familiares juntam as duas por omissão.
A distinção que resolve
Separá-las é mais simples do que parece. Basta dar à emergência um cargo próprio, com três campos escritos antes de qualquer nome ser cogitado:
Nome. Quem assume tem um título que diz que é temporário. Ninguém o chama de presidente, e ele não assina como tal.
Escopo. O que essa pessoa decide sozinha e o que ela leva ao conselho, por escrito. Estabilizar operação e caixa costuma bastar. Contratar diretoria, demitir executivos, vender ativo e mudar estrutura societária ficam de fora.
Prazo. Uma data. Noventa ou cento e oitenta dias. Na data, o conselho decide entre renovar, encerrar ou confirmar. A data faz a pergunta voltar à mesa por obrigação, sem depender da coragem de alguém para levantá-la.
Feito isso, a empresa recupera aquilo que o choque tinha tirado dela: tempo para escolher sem estar sangrando. O prazo é o campo que faz o resto funcionar, porque transforma a omissão em decisão. Sem data, o silêncio confirma. Com data, o silêncio encerra.
O que fazer nesta semana
Uma coisa só. Escreva, numa página, quem assina o quê se o comando vagar amanhã, com que alçada e até quando. Regra importa mais do que nome no topo, porque o nome muda com os anos e a regra fica.
Cincinato não foi excepcional por devolver o poder. Foi excepcional por devolvê-lo antes que alguém precisasse pedir.
Se o comando da sua empresa vagasse na segunda-feira, alguém assinaria. A pergunta é outra: essa pessoa foi escolhida, ou apenas estava por perto?
Histórias de empresas que saíram do prumo — e o que as endireitou.
Uma fábula sobre a decisão e o motivo na mesma página.
Dá nome ao que está acontecendo, a partir de uma conversa curta.
mini-diagnóstico →A mensagem já vai escrita, citando este artigo. Fala direto com Wagner.
Publicado toda sexta-feira pela Prumo Partners · Guilherme Saboia e Wagner Freitas

