
A Safrinha
Uma fábula sobre a decisão e o motivo na mesma página.
Uma casa pode decidir certo por quarenta anos e não ter como conferir nada, porque a decisão está num lugar e o resultado está em outro.
A imagem que sustenta o livro
No banco do carona de uma caminhonete, com a espuma afundada no formato do dono, fica um caderno de capa dura. Ervino Scherer anota ali as decisões da lavoura há quarenta anos, e o caderno nunca entra em casa, porque “caderno de lavoura não tem nada para fazer na cozinha.” Na cozinha, numa pasta de elástico em cima da geladeira, Salete guarda o resultado de cada safra. A Safrinha acompanha o caminho dessas duas letras até a mesma página.
A história
Na Pago Novo, no médio-norte de Mato Grosso, a família Scherer planta soja e milho segunda safra. Veio do Rio Grande do Sul, e na cidade se diz do pai: “Aquele nunca errou a data de plantio.” Maicon, agrônomo de trinta e quatro anos, voltou de vez há quatro, com uma planilha no celular que nunca mostrou a ninguém. Na casinha da balança, Sirlei guarda onze safras de folhas feitas à mão, e dá de ombros: “Ninguém nunca me pediu.”
No baile de aniversário do CTG, Maicon ouve o que o pai diz ao velho Idelfonso: “Eu acertei muito, Idelfonso. Eu também errei. Só que ninguém escreveu os que eu errei.” Em fevereiro chove onze dias, a fila do armazém chega a vinte e três caminhões e dois caminhões de fora não aparecem. Maicon anota: “hoje o motivo foi chuva. ontem foi fila. sexta foi caminhão.” O pai manda plantar e manda o filho escrever, e Maicon pergunta: “Posso escrever por quê?”
O que a fábula faz de melhor
Mostra uma casa que decide bem e anota tudo com cuidado, cada um no seu canto: o pai no caderno, a mãe na pasta, Sirlei na prancheta, Alcebíades na ficha da máquina. Pai e filho discordam com respeito. O Mato Grosso dos gaúchos aparece inteiro, com a poeira vermelha de janeiro, as botas lavadas na torneira antes do baile e o arroz com pequi ao lado da costela de fogo de chão.
Para quem é
Para quem decide por experiência e tem fama de nunca errar. Para o filho que voltou com planilha e ainda procura o jeito de mostrar. Para a mãe que fecha o mês todo dia trinta. E para quem pesa a carga e dirige o caminhão, e sabe coisas que ninguém perguntou.
Veredito
Um livro curto, que “cabe numa noite de safra”. Fecha com os Ditos da Safrinha e o Glossário Prumo, que deixa ao leitor uma pergunta por verbete, como esta: “o que a sua casa olha toda semana, sempre do mesmo jeito?”
E se o caderno no banco da caminhonete lembrar a sua própria casa, a Prumo terá prazer em conversar.
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Conte em que ponto a sua empresa está. Começamos por uma conversa.
