O lance que ele treinou mil vezes
Ele passou a carreira inteira respondendo bem — e travou na primeira reunião como presidente. O nome desse lance vem do esporte, e quase ninguém tem quem o diga. A edição de estreia de O Ponto de Virada.
O conselho tinha aprovado o nome dele algumas semanas antes. Na primeira reunião como presidente, ele fez o que sempre tinha feito para chegar até ali: respondeu. Foram noventa minutos de respostas precisas, número por número, sem propor uma única coisa. Ele saiu da sala achando que tinha ido bem. O conselho saiu achando que tinha acabado de contratar um excelente diretor.
Nós já vimos essa cena de perto mais de uma vez, em casas diferentes. O que mais impressiona é que ninguém ali dentro sabia dar nome ao que estava errado. Todos sentiram. Ninguém disse nada.
O nome do lance
O nome que usamos vem do esporte. O atleta passa a temporada inteira repetindo o mesmo movimento, o arremesso, a cobrança, o saque, e chega ao lance decisivo com o corpo pronto. E trava. Não porque esqueceu o movimento. Ele trava porque, pela primeira vez, está pensando no movimento enquanto executa. O treino automatiza; a decisão desautomatiza. O que salva o jogador na terça-feira atrapalha na final.
Todo executivo que muda de papel vive alguma versão disso, e quase nenhum tem quem lhe diga o nome. Quem está perto o suficiente para enxergar costuma depender demais dele para falar.
O erro que parece virtude
Quem sobe por mérito de execução costuma dobrar a execução quando chega ao andar de cima. É a resposta mais natural, e é a mais cara, porque o andar de cima pede outra coisa. Diretor responde. Presidente propõe. São dois movimentos diferentes, e o segundo não se aprende respondendo cada vez melhor.
O erro não é falta de preparo. É preparo do cargo anterior, aplicado com empenho ao cargo novo. Por isso ele passa despercebido durante tanto tempo: visto de fora, parece dedicação.
A conta
Nas conversas de mentoria, usamos uma forma simples de olhar para isso:
Domínio Real = Preparo ÷ (Ego × Hesitação)
O numerador quase sempre está bom. Executivos que chegam ao topo estudaram a vida inteira. O que derruba o Domínio Real mora no denominador: o ego, que impede de perguntar, e a hesitação, que transforma a pergunta engolida em decisão adiada.
E os dois se multiplicam, em vez de somar. Ego alto sozinho ainda deixa o sujeito decidir — mal, mas deixa. Hesitação alta sozinha ainda deixa consultar alguém. Juntos, os dois se alimentam em silêncio até derrubar o Domínio Real de quem, no papel, estava pronto. É por isso que quem treinou mil vezes trava.
O que fazer nesta semana
Uma coisa só, e ela custa mais coragem do que parece. Na próxima reunião em que você for o mais graduado da sala, escolha um assunto sobre o qual ainda não formou convicção e diga em voz alta, antes de qualquer outra pessoa falar: “Sobre este ponto eu ainda não tenho posição. Quero ouvir vocês antes.”
Esporte, liderança e as transições que decidem uma carreira.
Uma fábula sobre preparar alguém, marco a marco, até a lista do feito ficar maior do que a do prometido.
Um programa com começo, meio e fim, para as primeiras decisões na cadeira nova.
Mentoria Prumo →A mensagem já vai escrita, citando este artigo. Fala direto com Wagner.
Publicado toda segunda-feira pela Prumo Partners · Guilherme Saboia e Wagner Freitas

