O plano para a disputa que ainda não existia
A S.C. Johnson chegou à quinta geração na mesma família, com Fisk Johnson no comando desde 2004. Segundo um relato publicado em 2004 por um consultor de empresas familiares, a geração anterior formou um conselho de família e registrou, dentro dele, um plano para o dia em que os herdeiros tivessem um problema sem solução simples entre eles.
A S.C. Johnson chegou à quinta geração na mesma família. Herbert Fisk Johnson III, chamado de Fisk, assumiu a presidência do conselho em 2000 e o comando da empresa em 2004, sucedendo o pai, Samuel Curtis Johnson Jr.
Antes disso, a geração anterior fez algo que, nas famílias que acompanhamos, quase sempre só acontece depois de uma briga. Segundo um relato publicado em 2004 por um consultor de empresas familiares, ela formou um conselho de família, com Sam Johnson e os filhos reunidos com regularidade para tratar de empresa e de família nas mesmas conversas, e registrou dentro dele um plano para o dia em que os herdeiros tivessem, entre si, um problema sem solução simples.
O plano nasceu antes da disputa, quando ainda não havia nenhuma para resolver.
O espelho
Nas empresas familiares brasileiras que acompanhamos, o roteiro mais comum é o oposto. O conselho de família nasce depois do primeiro racha grande, quando dois herdeiros já pararam de se falar direto e passaram a se comunicar por advogado ou por um parente que se cansou de fazer o meio de campo. Uma estrutura desenhada nesse momento carrega a marca da disputa que a originou: soa a arranjo de paz assinado sob pressão.
Toda família com mais de um herdeiro tem atrito; isso não separa ninguém. O que separa é o momento em que a família escreve a regra do jogo: antes de precisar dela, quando ninguém ainda tem lado a defender, ou depois, quando a regra vira munição de quem já saiu machucado.
O que o "antes" muda no resultado
Um plano escrito antes da disputa é assinado por gente que ainda confia uns nos outros. Ninguém está tentando ganhar nada ao concordar com o texto, porque a disputa que ele resolveria ainda não tem nome nem lado. O documento nasce neutro, e essa neutralidade é o que sobra quando a disputa finalmente chega.
Depois da disputa, o mesmo texto pesa outra coisa. Cada cláusula é lida por quem já sabe qual lado ela favorece hoje, e a desconfiança sobre a intenção de quem propôs cada frase se soma à briga original, que era sobre negócio ou sobre herança, não sobre o texto do acordo.
O que fazer nesta semana
Se a sua empresa ainda não teve uma disputa grande entre herdeiros, esta é a semana de escrever o plano, exatamente porque ainda não precisa dele. Reúna quem vai herdar, pergunte o que fariam se dois deles discordassem de um jeito que ninguém resolvesse na mesa, e escreva a resposta enquanto ela ainda é hipotética para todo mundo.
Se a disputa já aconteceu, o plano escrito agora carrega outra marca, e mesmo assim vale escrevê-lo. Só não espere que funcione como se tivesse nascido antes dela.
---
Histórias de empresas que saíram do prumo — e o que as endireitou.
As conversas que a governança pronta não resolve sozinha.
Dá nome ao que está acontecendo, a partir de uma conversa curta.
mini-diagnóstico →A mensagem já vai escrita, citando este artigo. Fala direto com Wagner.
Publicado toda sexta-feira pela Prumo Partners · Guilherme Saboia e Wagner Freitas

