Quem anotava era quem podava
Numa vinha antiga, quem anotava a safra era quem fazia a poda — o número e a mão eram da mesma pessoa. A empresa familiar herdou o caderno e perdeu o motivo. A edição de estreia de Cadence by Prumo.
Numa vinha antiga, o registro da safra ficava num caderno. Quem anotava a chuva, a poda e o ponto da uva era o mesmo que fazia a poda. O número e a mão eram da mesma pessoa.
Aquilo funcionava, e funcionava por um motivo que pouco tem a ver com controle: quem anotava tinha o corpo na terra e a reputação na safra. Errar o caderno era errar a própria colheita.
A empresa familiar herdou o caderno e perdeu o motivo.
O número da semana
Comecemos pela pergunta que vem antes de todos os indicadores: quem produz o número que você usa para decidir?
Na maior parte das empresas em que entramos, a resposta é a mesma pessoa cuja avaliação depende daquele número. O gerente de vendas monta o relatório de vendas. O responsável pelo projeto reporta o andamento do projeto. O diretor industrial apresenta a produtividade industrial.
Ninguém está mentindo. É pior que isso: todo mundo está escolhendo, de boa-fé, o recorte que faz mais sentido a partir de onde está sentado. E a escolha de recorte, repetida mil vezes por mês, produz um painel inteiro que ninguém consegue contestar — e do qual ninguém consegue duvidar em voz alta.
Por que ele engana
O dono quase sempre já sabe. Essa é a parte que mais chama atenção nas primeiras conversas: raramente encontramos alguém surpreso. Encontramos gente que sabe que a conta não fecha e nunca teve como provar.
Já ouvimos um dono olhar para a própria demonstração de resultado e dizer: “esse número está certo, e mesmo assim eu não acredito nele.” Não é desconfiança de má-fé — é o estômago avisando que aquele relatório bonito não descreve a empresa que ele vê quando anda pelo galpão. Sem cadeia de custódia, a intuição do dono é a única auditoria que existe — e intuição não se leva ao conselho.
As três mãos
Cadeia de custódia de um número exige três mãos diferentes.
Quem gera — o sistema, o apontamento, a máquina. Sempre que possível, não uma pessoa.
Quem confere — alguém que não é avaliado por aquele número. Um par de outra área, o controller, um conselheiro.
Quem responde — o gestor da área, que explica o desvio e propõe a correção.
Quando as três mãos são a mesma, você não tem indicador. Tem opinião com casas decimais.
A conta
Uma das coisas que medimos é muito simples: quanto tempo a empresa leva para reagir quando um número importante muda. A margem caiu. O caixa apertou. A produtividade piorou. O projeto atrasou. Quantos dias se passam entre o primeiro sinal e uma decisão efetiva sobre o que fazer? Chamamos esse intervalo de LTI — Latência entre o Sinal e a Decisão.
LTI = data da decisão − data em que o número mudou
Quanto maior o LTI, mais tempo a empresa convive com um problema que já conhece, mas ainda não transformou em decisão.
Faixas de referência: até 45 dias, saudável. De 45 a 90, atenção. Acima de 120, o número virou paisagem — está no relatório, ninguém age, e a organização já aprendeu que ele não tem consequência.
Os números vitais e o ritual que os sustenta.
Uma fábula sobre o que a família nunca anotou.
Começa pela fase Fundação: em 90 dias a empresa passa a ter cinco números em que confia.
CADENCE by Prumo →A mensagem já vai escrita, citando este artigo. Fala direto com Wagner.
Publicado toda terça-feira pela Prumo Partners · Guilherme Saboia e Wagner Freitas

