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O Caderno dos Clássicos

Uma fábula sobre o que a família nunca anotou.

Guilherme Saboia e Wagner Freitas·fábula · conhecimento · legado · Prumo Partners Edições

Numa fábrica de papelão ondulado de Curitiba, a filha que voltou depois de seis anos fora pergunta o que a casa sabe sobre ela mesma, enquanto um jornaleiro da praça guarda quarenta e um anos de clássico num caderno.

A imagem que sustenta o livro

No centro do livro está um caderno de contabilidade, guardado numa banca de jornal de Curitiba. Nele, o jornaleiro Orlando anotou quarenta e um anos de clássico, com data, placar e o tempo que fazia. A Nota ao leitor faz a pergunta que esse caderno traz: “o que é que esta casa sabe sobre ela mesma?” O Caderno dos Clássicos deixa essa pergunta aparecer devagar.

A história

Numa quarta-feira de garoa, o Gilmar da expedição dá a notícia a Teobaldo Tesseroli: os Zaninelli perderam o Frigorífico, a conta que a Tesseroli tinha perdido para eles seis anos antes. Teobaldo manda buscar pão de queijo para o turno. Sheila, a filha, voltou de São Paulo em janeiro e está na fábrica há três meses sem cargo definido. Quer ver como a Tesseroli foi nos últimos cinco anos, e encontra seis anos de conversa sobre os Zaninelli. Pergunta ao pai: “A gente vai bem?” Ouve a resposta, percebe que perguntou errado e refaz: “Nos últimos cinco anos, o que melhorou aqui dentro?”

Na mesa da cozinha, a mãe, Vanderleia, fecha o mês numa folha de papel almaço e guarda todas as folhas, desde o começo. Na praça, Orlando abre a banca às cinco e quarenta e discute o clássico de domingo com o seu Clementino e o Espedito da padaria.

O que a fábula faz de melhor

Pensa junto com o leitor e deixa que ele junte as peças. Trata com respeito quem sabe o ofício: Lindalva conhece há vinte anos o que a máquina faz depois do fim de semana, e na banca de Orlando as discussões se acertam sozinhas. Curitiba está em cada página, com a garoa, o chá mate na garrafa térmica e o sábado de clássico entre a banca e a padaria. Os clubes aparecem como identidade de quem torce, e nenhum resultado é dado.

Para quem é

Para o dono que sabe de cor o que o concorrente perdeu. Para a filha que voltou e procura a pergunta certa. Para a mãe que fecha o mês na mesa da cozinha. E para quem está no chão da fábrica e sabe coisas que nenhuma folha registra.

Veredito

Uma fábula para ler de uma sentada ou de duas, com uma pausa no meio, junto com quem trabalha do escritório ao chão da fábrica. Fecha com os Ditos do Caderno e um glossário. A lição: “Uma casa sabe como vai quando olha os próprios números, um ano do lado do outro.” E a Nota ao leitor propõe um exercício: cada um escreve o seu número num papel, antes de alguém buscar a folha de pagamento.

E se a mesa dos Tesseroli lembrar a sua própria casa, a Prumo terá prazer em conversar.

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