
A Décima Colheita
Uma fábula sobre a safra que cresce em sacas e encolhe em dinheiro.
Num sítio de café do Sul de Minas, a filha conduz a colheita no lugar do pai de perna quebrada e descobre que a maior safra do caderno vai deixar menos que a anterior.
A imagem que sustenta o livro
No bolso do colete de Anacleto mora um caderno de capa dura. Nele estão quarenta anos de colheita, uma linha por ano: as sacas, o preço da saca e, na margem, uma palavra sobre a chuva. Nenhuma data, e nenhum erro. A Décima Colheita pergunta o que esse caderno deixa de anotar.
A história
Numa manhã de orvalho, na véspera da colheita, Anacleto escorrega no barranco do terreiro e quebra a perna. A filha, Marta, agrônoma formada em Lavras, assume a colheita no corredor do hospital, e Vicente, que chama a turma há trinta e cinco anos, lhe entrega o apito de osso. Marta abre um caderno de espiral, de capa mole, com colunas por talhão: gente, dias, trator, lenha, e duas em branco no fim.
Na cerca, Dona Zulmira, que vende ovo há cinquenta anos, faz a pergunta que ninguém no sítio sabe responder: “Quanto custa uma saca sua?” O classificador Custódio prova os dois talhões e acha dois cafés diferentes saindo pelo mesmo preço. Numa noite, na mesa da cozinha, Marta divide a conta, e o número que aparece muda a conversa da família.
O que a fábula faz de melhor
Trata com respeito quem sabe o ofício. O pai nunca errou uma conta, e o livro mostra isso do começo ao fim. A medida de sessenta litros, a lata de um litro no pano branco, a bica corrida e o medidor de umidade estão em cena, na mão de quem trabalha. E deixa a conta chegar à família no tempo da colheita, sem pressa.
Para quem é
Para o dono que sabe o preço de cor. Para quem voltou para suceder e ouve “ano que vem” há anos. Para o gestor de confiança que fica entre os dois. E para a família que vende mais a cada safra e quer entender o caixa.
Veredito
Uma fábula para ler de uma sentada ou de duas, com uma pausa no meio, junto com quem olha os mesmos números que você. Fecha com os Ditos do Terreiro e um glossário. A lição: “A safra que cresce em sacas pode encolher em dinheiro, e a casa vê o que cada saca deixa quando divide a conta por talhão e por comprador.”
E se a mesa da cozinha dos Bicalho lembrar a sua própria casa, a Prumo terá prazer em conversar.
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