
O Livro das Safras
Uma fábula sobre a decisão que ninguém conferiu.
Uma família que se reunia toda semana descobriu que decisão tem nome, data, marca e origem, e voltou a virar a página.
A imagem que sustenta o livro
O livro abre com um dito da Água do Cedro: “Decisão sem nome e sem data é conversa com hora marcada para voltar.” O Livro das Safras acompanha essa volta numa família de agricultores e põe no centro um livro de capa preta que ela guarda há três gerações.
A história
Todo domingo, na cozinha do sítio da Curva, Roberto Fukuhara serve o chá e abre a mesa com a mesma frase: “Então. O que a gente tem?” A bomba do poço está na toalha de limões pela terceira vez. A estufa de folhosas que Rafael trouxe desenhada do Japão espera há dois anos. Dona Tomie, oitenta e quatro anos, senta na cabeceira que foi do marido e põe a bacia embaixo da goteira. Tudo é conversado com atenção, e tudo volta no domingo seguinte do mesmo tamanho.
Emi volta para o sítio depois de quatro anos numa casa de classificação em Londrina, com uma régua de alumínio no bolso. Na segunda-feira, às cinco e meia da manhã, ouve o pai chamar o poceiro de Uraí, e no domingo a mesa tinha escolhido o outro. Roberto explica com paciência: “Ontem a gente conversou.” Emi começa a anotar num bloco de posto de gasolina, e numa quinta à noite vai à reunião do bairro, onde seu Kazuo lê de um caderno de capa verde e pergunta, item por item, se foi feito.
O que a fábula faz de melhor
Mostra uma família que se quer bem, conversa com carinho e vê os mesmos assuntos voltarem à toalha semana após semana. Todo mundo ali diz a verdade, e cada um tem a sua bacia: o pai decide na caminhonete, a avó fica quieta, o filho espera a vez. O norte do Paraná aparece por inteiro, com a terra vermelha, o placar de madeira do campo de beisebol que ainda diz 7 a 4, e os netos chamando os avós de batchan e ditchan.
Para quem é
Para quem senta à mesa toda semana com a família ou com os sócios. Para o pai que resolve tudo de cabeça e decide no caminho. Para a filha que chega com uma régua no bolso. Para o filho que espera a vez com paciência. E para a matriarca que percebe tudo o que a mesa sente e prefere a bacia.
Veredito
Um livro curto, para ler com quem divide a mesa. Fecha com os Ditos do Livro das Safras e um glossário, e a Nota ao leitor deixa uma tarefa simples para a semana seguinte: “antes de qualquer assunto novo, perguntem o que ficou com quem.”
E se o domingo dos Fukuhara lembrar a sua própria mesa, a Prumo terá prazer em conversar.
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